Sessão de Cinema
Outubro 29, 2007

Tesos sob o peso do pano branco
os bonecos ficam quase que inanimados
enquanto qualquer cena preenche a que não é
pelos bonecos, insensatos! completada.
Meia ou inteira
a entrada para o sonho custa pouco
só alguns pedaços soltos de papel timbrado
não é preciso pensar e não custa talvez um ato
paga-se a entrada, toma-se o assento e deixa-se ficar
depois do prefixo
há o sufixo de cada um no comercial
onde as emoções por vezes superam a do filme
(não há quem dentre os bonecos não deseje o último tipo de
televisão: a máquina que completa, encanta , assassina e delicia)
Então vem o filme
os bonecos se abraçam aproveitando o espaço
e sem tempo nem neste enlace físico se encontram
e assim
tesos sob o claro fundo e sonoro
sem nada manifestar ou dizer, ficam os bonecos.
17.05.1976 - Edson Gonçalves Ferreira.
Poema publicado originalmente no livro “O Cavalo-de-Couro e Pau” em 1977. O autor nascido em Divinópolis-MG, foi aclamado por Ivan Lins e Jorge Amado e atendeu à solicitações de importantes bibliotecas do mundo como a do Congresso Americano, além de várias instituições européias.
Ao que me pareceu através de uma dedicatória, era amigo de minha avó. Encontrei este livro em casa e achei fantástico, pois este poema em específico me lembrou muito os estudos realizados pelos filósofos da Escola de Frankfurt, como Valter Benjamin e Teodor Adorno, uma vez que faziam críticas ferrenhas ao novo sistema de produção cultural que começava a se destacar após a Segunda Guerra Mundial. Eles acreditavam que as produções eram absolutamente alienantes e em minha opinião este poeta também faz uma referência mais atualizada e certeira a esta linha de raciocínio, principalmente quando diz: “televisão: a máquina que completa, encanta , assassina e delicia.”

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